Levar a terra a sério: uma introdução à trajetória de Antônio Bispo dos Santos
Este minicurso de dois encontros propõe uma leitura detalhada dos ditos e escritos de Antônio Bispo dos Santos. Partimos de uma pergunta fundamental: o que muda quando levamos a terra a sério? Em outras palavras, o que acontece quando deslocamos as figurações da terra como “contexto”, “recurso”, “meio ambiente” ou “meio de produção”, e passamos a compreendê-la, nos termos do lavrador quilombola, como relação compartilhante que dá e quer? No primeiro encontro, acompanharemos o acontecimento Nêgo Bispo a partir de sua trajetória pública como relator da oralidade quilombola e dos saberes orgânicos da Caatinga. Na sequência, entraremos no cerne de sua proposição contracolonial: a biointeração como alternativa quilombola à metafísica do trabalho e sua contraparte intelectual, o saber sintético, entendidos como duas faces de uma mesma cosmofobia colonial. Nosso objetivo é abrir uma via de acesso rigorosa a um pensamento que emerge da terra e postula a roça - e todos os seus seres compartilhantes - como fundamento.
Aula 1 — O acontecimento “Nêgo Bispo”: da teoria à trajetória
O primeiro encontro acompanha a trajetória pública de Antônio Bispo dos Santos como relator da oralidade quilombola e dos saberes orgânicos da Caatinga, sem aceitar o lugar de “teórico” desconectado da terra e de seus viventes. Situaremos a emergência de sua guerra das denominações, que enfraquece palavras coloniais e potencializa palavras germinantes. Esse gesto será lido em relação ao ciclo de implementação das cotas étnico-raciais nas universidades brasileiras e ao horizonte de cotas epistêmicas anunciado por iniciativas como o Encontro de Saberes, quando a presença do mestre Nêgo Bispo passa a desestabilizar a monocultura dos saberes sintéticos.
Aula 2 — Biointeração contra a razão trabalhista
O segundo encontro entra no cerne da proposição contracolonial de Bispo, a saber: a biointeração como alternativa quilombola à razão trabalhista. Aqui, “trabalho” não é um tema somente econômico, mas uma tecnologia de domesticação que (des)envolve os viventes mediante o gesto de adestrar como colonizar. O encontro explora, ainda, o diagnóstico da cosmofobia — patologia colonial de aversão ao cosmos — e o antídoto da biointeração: não “teorizar”, “produzir” ou “preservar” a natureza de fora, mas relacionar-se com ela de dentro, postulando a roça de quilombo como crítica concreta da alienação ecológica.
01 / 02 ABR
quarta e quinta
19 — 21h
89,90
Formato: 2 aulas on-line via zoom.
Carga horária: 2h / aula, totalizando 4hs.
Haverá emissão de certificado.
Haverá bolsas para quilombolas e indígenas. Quem tiver interesse deve entrar em contato pelo email [email protected]
ASSINATURA / ACESSO ILIMITADO
12 x R$ 29,90
ou R$ 299 à vista
assinatura anual com
renovação automática
/ um ano de acesso ilimitado a todos os cursos (ao vivo e gravados)
/ acesso imediato a mais de 15 minicursos gravados
/ um minicurso novo ao vivo todo mês
/ desconto de 20% em todo catálogo da Ubu
Guilherme Moura Fagundes é realizador audiovisual e coordenador do Coletivo de Antropologia, Ambiente e Biotecnodiversidade (CHAMA/USP). Antes se tornar professor do Departamento de Antropologia da USP, atuou como docente e pesquisador visitante no Collège de France, na Universidade de Brasília e na Universidade de Princeton. Realiza pesquisas sobre as transformações nos incêndios florestais e a retomada das queimas indígenas em escala global, desenvolvendo artigos e peças audiovisuais sobre este tema junto a comunidades quilombolas, gestores de Unidades de Conservação e brigadistas do Cerrado brasileiro. Seus trabalhos receberam reconhecimentos pelo Prêmio ICS/UnB, Prêmio CAPES, Prêmio Lélia Gonzales, Prêmio Pierre Verger de Filme Etnográfico e do Prêmio Jovem Pesquisador da Société des Américanistes.
A terra dá, a terra quer registra de modo inédito muitos dos saberes transmitidos pela oralidade por esse "lavrador de palavras" acerca do agronegócio, das cidades, das favelas, dos condomínios fechados e da arquitetura. Transitando por muitos mundos, Bispo semeia potentes traduções de questões cruciais para o nosso tempo como ecologia, clima, energia, trabalho, cultivo e alimentação. Diante da mercantilização da vida e dos saberes, este livro compartilha a força ancestral da circularidade começo, meio e começo.
ECOLOGIA / DECOLONIAL / ANTIRRACISMO
Malcom Ferdinand propõe uma ecologia decolonial, uma abordagem interseccional extremamente sagaz que reúne o ecológico com o pensamento decolonial, antirracista, em uma crítica contundente ao “habitar colonial da Terra”.
2 aulas / 1h cada
59,90
ETNOGRAFIA / INDÍGENA / XAMANISMO / SONHOS
Em O desejo dos outros, Hanna Limulja oferece uma porta de entrada ao mundo yanomami através dos seus sonhos. Com o que sonham? O que significa sonhar e por que é importante?
2 aulas / 1h cada
49,90
ARQUEOLOGIA / ECOLOGIA / INDÍGENAS
Introdução ao conhecimento arqueológico que permitiu datar a ocupação indígena em mais de 12 mil anos na região amazônica, revelando que a floresta é resultado do manejo permanente de populações humanas.
2 aulas / 1h cada
49,90